24 junho 2012

Estamos no máximo solar?

Pelas previsões da NASA e outros organismos de pesquisa estaríamos entrando no máximo solar, ou seja, conforme o gráfico da figura estaríamos com um número de manchas solares em torno de 50 manchas mais ou menos 25, o que seria em relação ao ciclo anterior (o ciclo solar 23) um valor muito baixo, entretanto nos parece que as coisas não estão bem assim.



Se analisarmos os dados do dia 24 de junho de 2012 (ou seja, o dia em que estou escrevendo este texto), os resultados estão bem mais baixos.


A figura acima nos dá os principais índices da atividade solar desde o dia 6 de novembro de 2011, a linha vermelha representa o número de manchas solares medidas dia a dia.

Por outro lado o índice Planetário A é um índice que mede a intensidade geomagnética do Sol, a média mensal dá o chamado Índice Planetário AP, que também está em baixa.


Por fim F10.7 é uma medida do fluxo solar por rádio freqüência com comprimento de onda de 10,7 cm (porque este comprimento de onda, porque se media com outros objetivos no passado).


Todos estes índices são medidas indiretas da atividade solar, e todos indicam uma queda significativa para uma época de máximo solar.


Vamos esparrar alguns dias a mais e, caso a tendência continue, vamos comentar sobre isto, por enquanto é só uma observação.

19 junho 2012

Uma bela imagem para fundo de tela.

A seguinte imagem é uma produção da Nasa sobre como seria determinado continente durante o período do Mioceno médio, esta imagem se obtém aqui.


A new study finds ancient Antarctica was much warmer and wetter than previously suspected, with a climate that was suitable to support substantial vegetation—including stunted trees—along the edges of the frozen continent. This artist's rendition created from a photograph of Antarctica shows what Antarctica possibly looked like during the middle Miocene epoch, based on pollen fossil data. The landscape featured freshwater algae growing in meltwater ponds, low tundra vegetation on coastal plains and tundra with shrub-like southern beech and low podocarp trees growing on warmer sites, with shrubs as high as approximately 20 inches (50 centimeters). 

Image credit: NASA/JPL-Caltech/Dr. Philip Bart, LSU
Mas o que tem esta imagem de surpreendente? Simplesmente é uma reconstituição de como seria a Antártica neste período! Ou seja, a bem pouco tempo a Antártica tinha vegetação nas suas costas inclusive pequenas árvores!


Para dar uma noção de quão recente é o mioceno médio, coloco a tabela estratigráfica internacional, já traduzida para o português pelo serviço Geológico do Estado de São Paulo.


Coloquei dois quadros, um que cobre todo o Mioceno e outro de época anterior a esta, o Cretácio que foi a época dos dinossauros. Importante dizer que no Mioceno já existiam mamíferos e os dinossauros já estavam extintos.




Resumo da história: O clima sempre mudou, e épocas mais quentes já existiram, nada impedindo que elas existam de novo!

18 junho 2012

Correlação muito forte entre raios cósmicos e clima.


Acaba de ser publicado nas Proceedings of National Academy of Science of the United States of America, mais conhecida pela sigla PNAS, um trabalho extremamente importante que mostra a correlação entre a intensidade solar e o clima na Terra.

O trabalho tem o nome “9,400 years of cosmic radiation and solar activity from ice cores and tree rings” e é de livre acesso (não precisa pagar para lê-lo), para quem quiser é só seguir o Link aqui, para dar uma noção da seriedade do trabalho colocarei a lista de autores que assinam este trabalho com suas instituições de origem:

Friedhelm Steinhilber, Jose A. Abreu, Jürg Beer, Irene Brunner, Mathias Mann (Swiss Federal Institute of Aquatic Science and Technology), Marcus Christl Peter e W. Kubik, (Laboratory of Ion Beam Physics, Swiss Federal Institute of Technology Zurich), Hubertus Fischer (Climate and Environmental Physics, Physics Institute and Oeschger Centre for Climate Change Research, Switzeland), Ulla Heikkilä (Australian Nuclear Science and Technology Organisation ANSTO), , Ken G. McCracken (Institute for Physical Science and Technology,University of Maryland), Heinrich Miller Hans Oerter, and Frank Wilhelms
 (Institute for Polar and Marine Research, Germany), Hiroko Miyaharag, (Institute for Cosmic Ray Research, University of Tokyo)

Logo temos institutos suíços, norte-americanos, australianos e japoneses ou seja uma bela mistura de interesses que dá credibilidade ao artigo.



Antes de algum comentário vamos colocando a figura chave deste artigo, onde mostra uma forte correlação em 9000 anos da intensidade solar com o regime de monções na Ásia. Diga-se de passagem esta correlação para períodos mais curtos é fortemente demonstrada em outros artigos anteriores.

O importante neste artigo é que mostra CLARAMENTE que o sol é um dos fatores mais importantes como uma forçante do clima, coisa que é TOTALMENTE IGNORADA nos trabalhos do IPCC.

Nas conclusões fica claro que os autores não eliminam a influência de outros fatores, como vulcanismo e gases de efeito estufa como forçantes do clima.

Os dados que dão origem a esta conclusão são anéis de árvores, e testemunhos de gelo na antártica e na Groenlândia.

Quem quiser mais informações sugiro que leia o artigo propriamente dito, pois poderá ver todos os cuidados que foram tomados na extração dos dados.

O importante é que os autores estão baseando seus resultados extraindo as fontes de bancos de dados que estão sendo gerados de forma independente e disponibilizados para a comunidade científica, por exemplo os dados dos anéis de árvores foram tirados de Reimer PJ, et al. (2009) Intcal09 and Marine09 radiocarbon age calibration curves, 0–50,000 Years Cal Bp. Radiocarbon 51:1111–1150, dados que podem ser obtidos na rede aqui, da mesma forma os dados dos testemunhos de gelo também são abertos.

Este último parágrafo é importante destacar, pois até hoje o CRU (Climatic Research Unit) da Universidade de East Anglia se nega peremptoriamente entregar os dados BRUTOS de medida de temperatura nos últimos 180 anos (que deram origem a "confirmação" da teoria do AGW) alegando que os países que os cederam não aceitam esta entrega (o pior que eles não dizem quais países). Eles divulgaram somente os dados tratados.

17 junho 2012

Sustentabilidade, muito se fala pouco se quantifica, ou ainda, a variação do preço do petróleo em função do EROI.


Em outros post (vide aqui, e aqui) descrevi um índice muito interessante que se trata do EROI (Energy Return On Investment), um índice que trata sobre a viabilidade da exploração de um tipo de energia em função da relação energia que se retira com a energia despendida. Por exemplo, se ao se retirar X kW de energia de uma fonte qualquer (petróleo, gás, hidroeletricidade, energia eólica, etc.) se consome 1 kW o valor do EROI é X, (fontes (A) e (B), produção de 20kW e 30 kW, consumo 1kW nas duas EROI 20 e 30, respectivamente) o EROI é extremamente útil na definição da sustentabilidade ou não de uma forma de geração de energia.

Este índice é fácil de entender e difícil de calcular, pois é necessário determinar todo o consumo de energia na cadeia de produção para a determinação do índice. Ele também é útil para mostrar que determinados tipos de geração de energia por biomassa são completamente antissustentáveis como, por exemplo, o álcool de milho e outros (o álcool de cana de açúcar está no limite).

A grande novidade é a relação que se obteve entre o preço do petróleo e o EROI do mesmo. Matthew Kuperus Heun e Martinde Wit, dois pesquisadores publicaram a pouco em Energy Police, um artigo sobre isto que chega a conclusões interessantes, o artigo é “Energy return on (energy) invested (EROI), oil prices, and energy transitions” e se encontra um resumo grátis em aqui.

Se a relação entre preço e EROI, que está relacionado diretamente com a abundância de determinado recurso mineral, fosse algo contínuo seguindo uma lei tipo potência, o trabalho não teria maior interesse, porém numa série de 50 anos de dados do preço do petróleo e o EROI deste (mostrando o aumento da dificuldade técnica em extrair este insumo) eles chegam a uma correlação importante, que permite uma série de conclusões:



A primeira grande conclusão é que tanto as altas do petróleo como suas baixas podem facilmente ser correlacionadas não simplesmente ao mercado, mas sim a ganhos tecnológicos na extração do mesmo.

Segundo, que a variabilidade do preço, com o embargo e posterior normalização, pode ser perfeitamente ajustada a uma situação de mercado natural sem as limitações impostas por problemas de guerras ou embargos. A figura 10 do trabalho que mostra um cenário um pouco caótico é ajustada pela relação, EROI/Preço.



Terceira conclusão, que abaixo de um determinado patamar de EROI as relações não lineares entre EROI e preço tornam-se significativas fazendo o preço do petróleo disparar, eles estimam que em torno de 20 a 10 este valor tende a crescer quase que exponencialmente, seria uma espécie de Fator Pânico (a última frase é de minha responsabilidade, não está no artigo).

Quarta e última conclusão, que o preço não é um bom índice para se preparar transições de energia, pois estes fatores não lineares falseiam a penúria do produto e induzem a pressões políticas que levam a recessão e diminuem a capacidade de investimento em outras fontes alternativas de energia.

Como uma conclusão pessoal, vejo que muito se discute em sustentabilidade, mas pouco se quantifica, ficamos a rebote de conceitos genéricos, como a pegada ecológica, e deixamos de lado a quantificação exata da penúria e do custo exato em termos ambientais de fontes energéticas e outras matérias primas.
Poder-se-ia quantificar algo semelhante ao EROI para matérias primas como o ferro, soja, gado, alumínio e terras raras, e a partir desta quantificação traçar projeções corretas da sustentabilidade ou não do planeta Terra.

13 junho 2012

A verdade sobre a potência dos geradores eólicos.

As tabelas abaixo mostram o que foi realmente gerado e o que foi prometido pelos operadores dos geradores eólicos, os dados são do Operador Nacional do Sistema Elétrico, organismo encarregado de comandar a distribuição da energia gerada no Brasil.

A tabela 2, que vem primeiro, mostra que no Nordeste onde as empresas de geração eólica prometem valores de fator de capacidade (relação entre o gerado e a capacidade do sistema) com valores muito acima da literatura mundial (0,50 !!!!). Sombreado em amarelo  estão os piores valores, no caso os valores produzidos de energia elétrica em 2011 e 2012 (até abril de 2012), isto é, são os valores reais que as turbinas geraram.

Vide que no Nordeste os proprietários das Usinas prometeram valores que variam de 0,32 até 0,50 e que realmente em todo o ano de 2011 foi entregue bem abaixo disto 0,20 até 0,42.

Sistemas mais robustos como o de Praia Formosa de com 50 aerogeradores de 2.088kW totalizando 104,4MW só conseguiram gerar 25,57MW nos últimos doze meses, o que dá um fator de  potência de 0,2952 correspondendo a 75% do que foi prometido.


No caso do Rio Grande do Sul, os operadores foram menos ambiciosos e prometeram no máximo 0,37 atingindo em 2011 um fator de 0,4085 na Usina Chato III. Cabe ressaltar que estes valores são dos meses com mais vento no litoral pois as unidades foram colocadas em operação em junho e julho de 2011.


Há uma forte propaganda, que se está revelando mentirosa, que o Brasil como um todo apresenta ventos fantásticos, mas chamo a atenção que os locais escolhidos para estas Usinas são os melhores do Brasil, e quando eles esgotarem a capacidade de implantar aerogeradores, os fatores de capacidade cairão na média nacional em torno de 0,35, um valor muito bom, mas não excepcional.

05 junho 2012

A Groelândia está derretendo, porém não é para os próximos séculos que ela ficará sem gelo!


Durante os últimos anos recebemos notícias alarmistas sobre o fim do Ártico no verão, já previram a mais tempo que entre 2010 e 2020 isto aconteceria, porém novas evidências bem recentes mostram outra história.

Imagens de satélites nos últimos 30 anos mostram um recuo nas geleiras da Groelândia e a partir dessas foram projetados cenários catastróficos que mostravam um futuro sem gelo para esta maior ilha gelada do mundo. Antes desta data as informações eram quase nulas, pois ninguém tinha o interesse de quantificar a variação das geleiras. Entretanto durante a década de 30, ou seja a 80 anos atrás os Dinamarqueses enviaram sete missões aéreas para fotografar a costa sudeste da Groelândia. Devido a Segunda Grande Guerra os documentos fotográficos que tinham sido tirados desde 1931 até 1933 estavam perdidos, só restando artigos que relatavam as espedições como “Dr. Knud Rasmussen's Contribution to the Exploration of the South-East Coast of Greenland, 1931-1933”.

Como o interesse pelo clima e pela situação das geleiras aumentou a busca dessas fotos também aumentou, resultando que uma série de fotos de 1931, 1932 e 1933 foram recuparadas, 36 fotos de 1931, 9 de 1932 e 212 de 1933. Compondo estas fotos com fotos tiradas pelos Norte-americanos durante a Segunda Guerra (1943 – 124 fotos) com mais fotos com um dos primeiros satélites espiões norte-americanos, a série de satélites  Corona, que tiravam fotos para a CIA entre 1959 e 1972 (somente em 2002 que as imagens foram desclassificadas como secretas e divulgadas publicamente) e mais as imagens de satélites civis como Landsat 1 (1972) Landsat 7 (2000-2010) e fotos aéreas de 1981 até 1985, foi possível montar o quebra-cabeças da situação das geleiras da costa sudeste da Groenlândia. (An aerial view of 80 years of climate-related glacier fluctuat ions in southeast Greenland, 2012 Bjørk, A. A.et alli Published Online: 27 MAY 2012 | DOI: 10.1038/NGEO1481 - Nature Geoscience)
Região abrangida pelo estudo.

Após todo este trabalho, mais arqueológico do que qualquer coisa, se chegou um retrato completo da velocidade de recuo das geleiras (e avanço em alguns casos).
Com isto verificou-se quatro períodos distintos de progressão das geleiras. Um primeiro, durante as décadas de 30 a 40 onde a velocidade de degelo era rápida, inclusive mais rápida em alguns pontos (sobre a terra) que os dias de hoje, um segundo período, entre 40 e 70 em que praticamente parou o degelo (avançando as geleiras numa quantidade significativa de pontos), um terceiro, onde há uma súbita retomada do degelo (~1970 até ~1980 – valores não muito claros para todos os casos), para por fim entre 2000 e 2010 retomar uma velocidade alta principalmente nas geleiras que estão em contato com o mar.
Taxa de perda de gelo (diagrama mais abaixo) e medidas de temperatura no mar (gráfico superior) e  terra  (gráfico do meio)
 A conclusão que nossos amigos Dinamarqueses chegam, é que o degelo continuará acentuado nas geleiras que tem contato com o mar e que a partir do momento que elas encontrarem a terra a taxa de degelo deverá cair a menos de 1/3 do que a atual.

Mesmo considerando que o degelo continue, algo que no momento diminui a quantidade de pessoas que acreditam nisto, a progressão de perda de gelo na Groelândia  deverá atingir valores do em torno de 10 m por ano, para uma ilha que tem centenas de quilômetros de largura, para esta degelar por completo, faltaria muitos séculos ou alguns milênios.

04 junho 2012

Complementaridade da geração eólica com outros tipos de geração.


Muito se fala sobre a complementaridade da geração eólica com outros tipos de geração. Existe uma série de notícias em jornais e na Internet que dão como certa uma complementaridade da geração eólica no Brasil com diversos sistemas.

O trabalho mais clássico de todos é o de Amarante et alli (2001), denominado Wind/Hydro Complementary Seasonal Regimes in Brazil” (DEWI Mag, 19, pp.79-86). Este trabalho é utilizado intensivamente por vários outros trabalhos (inclusive dissertações e teses), nos parecendo um pouco impróprio o uso deste trabalho, não pela falta de qualidade do mesmo, mas por leitura incorreta do trabalho.

Talvez esta leitura incorreta seja um pouco induzida pelo título do trabalho “Complementaridade Sazonal dos Regimes Hidrológico e Eólico no Brasil”, que leva um leitor mais desatento pensar que os autores estudaram o regime hidrológico no Brasil e compararam com a intensidade de ventos médios no país, entretanto o que está apresentado no trabalho não é exatamente isto.

No trabalho de Amarante et alli (2001) só foram feitas somente duas comparações. A primeira entre 2 (dois) anos de medida de vento no Estado do Ceará com a média de 61 anos da geração da usina de Sobradinho no Rio São Francisco, ou seja, compara-se dados de ventos medidos em dois anos com uma média anual de 61 anos de geração hídrica em uma barragem.

Na segunda parte do trabalho os autores mostram que analisando os regimes de vento no Paraná durante o período 1994-1999, extrapolados, através de uma correlação entre as torres de medida de vento e dados de uma estação climatológica, estes dados de 1983 até 1999. Com estes resultados os autores deixam claro que não encontraram correlação favorável entre a geração eólica e o regime hídrico.

Outras citações numerosas são quanto a complementaridade entre a energia eólica e solar, estas sim são extremamente reveladoras, pois elas mostram que a energia eólica é menos disponível exatamente na hora de maior consumo e se formos complementá-la através de painéis foto-voltaico ela se torna completamente proibitiva.

Em todas am minhas pequenas pesquisas sobre fontes alternativas de energia, uma coisa que mais me surpreende é a falta de critério na escolha das fontes bibliográficas de trabalhos em seminários e congressos ou até mesmo em dissertações ou teses, apesar de farto material sobre energia eólica em revistas indexadas internacionais, a grande maioria das referências que vejo são de dados fornecidos por fabricantes ou mesmo de associações para o desenvolvimento da energia eólica (ou solar).

Gasto público em educação por Estado

Abaixo segue uma tabela de gastos públicos de educação de por Estado (estado e municípios), tirem suas conclusões:

Rio Grande do Sul 19,7%
Rio Grande do Norte 22,4%
Pará 25,3%
Alagoas 25,6%
Roraima 25,7%
Amazonas 25,8%
Tocantins 25,9%
Mato Grosso 26,0%
Santa Catarina 26,2%
Acre 26,2%
Rondônia 26,2%
Bahia 26,3%
Pernambuco 26,5%
Paraíba 26,5%
Maranhão 26,7%
Rio de Janeiro 27,2%
Minas Gerais 27,3%
Piauí 27,3%
Goiás 27,5%
Sergipe 28,3%
Ceará 29,2%
Distrito Federal 29,3%
São Paulo 30,2%
Espírito Santo 30,6%
Paraná 31,8%
Amapá 32,0%
Mato Grosso do Sul 32,5%

02 junho 2012

Código de Nuremberg e ética médica nas pesquisas acadêmicas.


Comecei a escrever este post há mais de dois dias, no início até adotei um pequeno grau de ironia no texto que ao refletir melhor verifiquei ser o assunto é pesado demais para qualquer desvio, logo demorando mais para publicar o assunto, vi que os desdobramentos são sérios colocando a Academia e a Ciência no banco dos réus.

Está sendo divulgado na imprensa portuguesa uma pesquisa que foi feita já a algum tempo na Casa Pia de Lisboa. Mais de 507 crianças que estavam abrigadas nesta mais que centenária instituição Portuguesa, foram utilizadas numa pesquisa que já teve seus resultados divulgados em revistas de odontologia, como os que abaixo citarei:

Neurobehavioral effects of dental amalgam in children: a randomized clinical trial.  DeRouen TA, Martin MD, Leroux BG, Townes BD, Woods JS, Leitão J, Castro-Caldas A, Luis H, Bernardo M, Rosenbaum G, Martins IP. JAMA. 2006 Apr 19;295(15):1784-92.

Neurological outcomes in children with and without amalgam-related mercury exposure: seven years of longitudinal observations in a randomized trial.  Lauterbach M, Martins IP, Castro-Caldas A, Bernardo M, Luis H, Amaral H, Leitão J, Martin MD, Townes B, Rosenbaum G, Woods JS, Derouen T. J Am Dent Assoc. 2008 Feb;139(2):138-45. Erratum in: J Am Dent Assoc. 2008 Apr;139(4):404.


Urinary porphyrin excretion in children with mercury amalgam treatment: findings from the casa pia children’s dental amalgam trial.  Woods JS, Martin MD, Leroux BG, DeRouen TA, Bernardo MF, Luis HS, Leitao JG, Simmonds PL, Echeverria D, Rue TC. J Toxicol Environ Health A. 2009;72(14):891-6.

Para entender o sentido de colocar neste blog mais devotado a área das ciências exatas e da Terra do que as ciências da saúde, vamos a descrição da pesquisa e de seus desdobramentos éticos.

Primeiro, pesquisadores da Universidade de Washington em conjunto com Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, para realizar uma pesquisa clínica randomizada, escolheram,  em janeiro de 1997,  503 crianças de 8 a 12 anos de idade da Casa Pia de Lisboa (segundo um dos artigos científicos, uma instituição de ensino de Portugal !), Segundo o abstract de um dos artigos, "(228 females and 279 males)". Após exames clínicos um grupo escolhido de forma aleatória passou a ter seus dentes obturados com amálgama e outro grupo de controle com resina composta, sem a presença de metais pesados. Durante sete anos estas crianças foram acompanhadas e verificado se havia diferença estatística em alguns sintomas característicos de envenenamento por mercúrio.

Agora vem as perguntas, por que desta pesquisa? Por que a Casa Pia de Lisboa? E, como conseguiram acompanhar um grupo tão numeroso durante todo este período?

Como ainda há suspeitas que o amálgama dentário, composto basicamente de mercúrio metálico que é misturado com outros metais, pode ser tóxico às pessoas que portam obturações deste material, tentou-se verificar se estas crianças não desenvolviam alguns sintomas. Estas suspeitas advém do conhecimento que o mercúrio é um material que: "Uma potente neurotoxina, a exposição ao metilmercúrio danifica o cérebro, rins e fígado, e causa problemas de desenvolvimento, desordem no sistema reprodutivo, distúrbios cognitivos, prejudica a fala e a visão, causa dificuldades para ouvir e caminhar, distúrbios mentais e a morte" segundo Environmental Protection Agency (US). Mercury study report to Congress. Washington;EPA. Pub.No.: EPA/600/P-97/002Ab (apud Exposição ao Mercúrio: A bomba-relógio tóxica mundial (relatório do Ban Mercury Working Group - Preparado para a 22ª reunião do Conselho Diretivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente Nairobi, Quênia). Logo é de interesse da comunidade científica saber se na forma de amálgama pode causar algum efeito deste tipo as pessoas.

A segunda pergunta, que respondida começa a mostrar a total falta de ética dos realizadores desta pesquisa, é por quê da escolha da Casa Pia de Lisboa e não em outra instituição de ensino do mundo. Para entendermos melhor o que é a Casa Pia de Lisboa vamos a uma pequena revisão histórica do que é esta "instituição de ensino", como propalada nas pesquisas.

Retrato de Dona Maria, a Pia (ou Maria a Louca).

Em 3 de julho de 1780, no reinado de Maria I de Portugal, conhecida pelos codinomes de Maria Piedosa, Maria Pia ou também no Brasil de Dona Maria, a Louca (devido aos 24 últimos anos de sua vida em que ela foi substituída pela regência de seu filho Dom João VI, por motivos de insanidade) foi fundada em Lisboa a Casa Pia de Lisboa. Esta instituição de “caridade” tinha por objetivo acolher os órfãos portugueses assim como crianças pobres que mendigavam em Portugal, para formar marinheiros e soldados para o país, o que hoje chamaríamos de bucha de canhão. Hoje em dia a Casa Pia não pertencente mais a Igreja, mas sim ao Estado Português, porém a característica de orfanato e colégio interno ainda perdura. Se podendo dizer que a Casa Pia é um internato para órfãos e crianças pobres potuguesas.

Lisboa - Colégio D. Maria Pia (Casa Pia), 2010Abr
Foto da Casa Pia (Foto Google Earth)

Bem, a Casa Pia em 2002 já foi origem de um escândalo de abusos sexuais cometidos por várias pessoas de vários níveis sociais atingindo Embaixadores, radialistas proeminentes e outros. Como resultado do julgamento levou-se a prisão 7 dos acusados em 2010 por 17 crimes (penas entre 18 anos de reclusão a 7 nos, penas relativamente brandas para quem por exemplo confessou 639 atos de violência). Após o escândalo inicial nos anos de 2002 onde foram denunciados 447 casos em 2009 este número de denúncias passou a 1216 casos (vide aqui e aqui). O escândalo foi muito pouco divulgado no Brasil e houve até tentativas de acobertamento por políticos de alto nível da política portuguesa.

Continuando nos desmandos da Casa Pia, em 1997, foi autorizado pelas mesmas pessoas que estavam na direção desta "instituição de ensino" o uso das crianças (a maioria órfãos) como cobaias destas experiências. Era o ideal para uma pesquisa médica totalmente randomizada (como indicado no título das pesquisas), se pegavam crianças sem cáries, dividiam-se ao azar em dois grupos, e um era tratado com amálgama e outro com compostos modernos sem a presença de mercúrio.

Esta pesquisa se procedeu dentro do espírito científico moderno introduzido por Joseph Mengele, o também com o codinome de conhecido de “O Anjo da Morte”, codinome obtido devido as suas experiências PSEUDO-CIENTÍFICAS no campo de Birkenau (parte do conhecido campo de concentração de Auschwitz). Algumas dessas crianças foram premiadas com mais de 16 dentes com amálgama, provavelmente para testar situações extremas.

Para alegria dos “pesquisadores” que participaram desta atrocidade, foi comunicado que depois de 7 anos eles não detectaram estatisticamente nenhum comprometimento na saúde das crianças. Chamo a atenção que estudos Randomizados na medicina, são considerados "o padrão ouro da medicina baseada em evidências científicas" (Malavolta, E. A. et alli 2011), porém os mesmos autores advertem já no título do trabalho, Ensaios clínicos controlados e randomizados na ortopedia: dificuldades e limitações,  pois é necessário "O desenho de qualquer estudo deve ser escolhido baseado em uma questão específica, que corresponde ao problema a ser investigado. Uma pergunta inicial muito ampla dificulta o cálculo da amostra e a escolha das variáveis de desfecho." e eu acrescentaria mais dois problemas mais graves que podem ocorrer na "pesquisa norte-americana - portuguesa". Primeiro, perguntas que não forem feitas não serão respondidas, ou seja, se os pesquisadores adotarem como teste de morbidez do mercúrio (como adotaram) determinadas patologias terão respostas somente para estas e não para outras que escapem dos exames clinicos gerais. Segundo, após os sete anos da pesquisa as obturações não foram retiradas, por consequência nada se pode dizer sobre o efeito cumulativo a grande prazo do amálgama na saúde ao longo da vida das "cobaias".

Citando mais uma vez Malavolta et alli (2011), está claramente expresso no trabalho desses autores, que por razões éticas deve-se tomar os seguintes cuidados no recrutamento das cobaias humanas: "Nunca se deve omitir informações sobre riscos e evidências existentes no Termo de Consentimento Livre e esclarecido, que todos os pacientes devem obrigatoriamente assinar previamente à entrada no estudo, como exigido pelos comitês de ética institucionais." (os grifos são meus)

Para que fique claro que a posição não é pessoal, incluo aqui o link para World Medical Association (WMA) que trata de ética na pesquisa médica, WMA Declaration of Helsinki - Ethical Principles for Medical Research Involving Human Subjects. Neste texto fica claro vários preceitos de ética, dentre os quais não se deve executar pesquisas médicas que envolvam riscos, sem que os benefícios para as populações testadas sejam maiores do que os riscos, ou seja, se obturar dentes com amálgama, possa causar danos e se este tipo de obturação em relação a compostos modernos não traz nenhum benefício, não é ético fazer este tipo de pesquisa. Também fica claro nesta mesma declaração de princípios que populações vulneráveis devem ser cobertas de mais cuidados quanto a realizações de ensaios e que principalmente estas populações devem dar o consentimento pessoal, não podendo familiares ou líderes das comunidades aceitarem em nome do testado.

Saindo do aspecto mais técnico e indo para o aspecto humano, obrigar crianças órfãos, de baixo nível social de participar de pesquisa como cobaias sem que estas nem tenham condições de analisar os riscos ou de questionar o tratamento, é um verdadeiro crime contra humanidade, já em 1947, no primeiro princípio do Código de Nuremberg, fica claro da impossibilidade do uso de crianças para pesquisas médicas deste tipo, e sete médicos Nazistas foram executados por desrespeitarem estes princípios.

Foto do Julgamento de Karl Brandt (condenado a morte)