26 dezembro 2012

Riscos de Tsunami no Brasil.


Como já passou a data que místicos e charlatões vaticinavam para o fim do mundo, é possível se postar na Internet alguma coisa sobre riscos de desastres sem contribuir para a histeria. Se fala muito sobre a imunidade do nosso país aos riscos de Terremotos e Tsunamis, porém talvez não seja totalmente verdade esta nossa imunidade, e poderíamos perguntar seriamente.

O Brasil é imune a Tsunamis?

Cientificamente não se pode afirmar que não. Na realidade se formos falar em termos estatísticos poderíamos comparar o risco de um Tsunami no Brasil com a sorte de um apostador acertar na Quina! Ou seja, o risco é baixíssimo, entretanto como somos um povo que confiamos na sorte, e fazemos a nossa fezinha na Quina mesmo sabendo que a chance é baixa, não custa nada falar sobre estes riscos, até para que numa situação deste tipo de evento saibamos como nos comportar (assunto que poderá ser desenvolvido em outro post).

Primeiro quais seriam os focos geradores de Tsunami para as costas brasileiras?

A primeira situação, já descrita em vários blogs e artigos científicos, é o deslizamento de parte do Vulcão Cumbre Vieja, nas ilhas Canárias, hipótese que é real e não faz parte de filmes de desastres. Só para dar uma ideia da possibilidade que existe deste evento é possível localizar em revistas científicas e publicações em congresso nos anos 2011 e 2012, alguns trabalhos publicados sobre o assunto (aqui, AQUI e AQUI, nos dois últimos links é possível se acessar os trabalhos integrais).

As estimativas destes trabalhos são bem otimistas em relação a trabalhos anteriores, pois os autores supõe que estes tipos de deslizamento são gradativos e não um deslizamento rotacional como ocorre em meio subaéreo (bloco contínuo). A meu juízo isto é baseado numa hipótese falsa, esta hipótese é baseado na investigação dos depósitos sedimentares provocados por deslizamentos do mesmo tipo, e como nestas pesquisas foram achadas feições características de depósitos turbidíticos (aqui, e AQUI), os pesquisadores que as realizaram tomaram como hipótese do mecanismo de formação de correntes turbidíticas, fluxos contínuos de material para dentro do oceano (não pulsos únicos como um deslizamento rotacional).

A partir de simulações físicas levadas a cabo no NECOD (Núcleo de Estudos de Corrente de Densidade) se verifica que independente do mecanismo de gatilho do fluxo (pulso ou fluxo contínuo), as feições características de fluxos turbidíticos estão presentes, logo a observação pura e simples do depósito não explica a origem do mecanismo de inicialização do fluxo, pois com o aumento da distância a origem, do mesmo, há uma segregação entre camadas que podem ser originadas de múltiplos aportes de sedimentos ou de um aporte único. Ao nosso juízo uma simulação (AQUI) que partem do pressuposto de um deslizamento convencional é mais adaptado para a simulação de riscos, pois resultam em maiores ondas.

O deslizamento de parte do Vulcão Cumbre Vieja, geraria ondas que segundo as hipóteses adotadas, criariam ondas na costa brasileira que variariam entre 3m e 18m, ou seja, 3m segundo as simulações supondo um deslizamento em partes e 18m supondo um modelo análogo a um deslizamento rotacional.

Simulação matemática de um Tsunami gerado pelo deslizamento do Vulcão Cumbre Vieja.

A segunda situação, que não é muito ventilada, é a de Tsunamis gerados por terremotos na dorsal meso-atlântica (ou crista oceânica do Atlântico - dorsal oceânica é uma cadeia de montanhas submersas no oceano, que se originam do afastamento das placas tectônicas). Esta a cordilheira submarina formada no Atlântico Norte entre placas tectônicas Norte-americana e Euroasiática, e no Atlântico Sul entre as Placas Sul-americana e Africana. Como estas placas apresentam um limite divergente (as placas estão se afastando e não se aproximando) a atividade vulcânica é muito menor (isto não quer dizer que seja inexistente!), sendo concentrada estas atividades próximas as ilhas do Caribe e as ilhas Sandwich do Sul.
Fonte: http://www.maine.gov/doc/nrimc/mgs/explore/hazards/tsunami/jan05-5.htm

 Excetuando as duas regiões citadas (ilhas do Caribe e as ilhas Sandwich do Sul), tremores de terra são geralmente de baixa intensidade, mas mesmo assim eles existem, por exemplo, em 25/12/2012 ocorreu um tremor de terra de ligeira intensidade (magnitude 4,9 escala Richter) exatamente nas coordenadas 22.406°S e 12.650°W, ou seja aproximadamente na mesma latitude que a cidade de Vitória no Espírito Santo. Logo, nada se pode dizer que no futuro não tenhamos terremotos de maior intensidade.

Agora no caso das ilhas Sandwich do Sul são grupo de ilhas vulcânicas criadas pela subducção da Placa Sul-Americana sob a placa Sandwich do Sul. Apesar da placa Sandwich do Sul ser muito pequena, o encontro entre estas duas torna a região muito ativa em termos de terremotos, em 2 de janeiro de 2006, por exemplo, ocorreu um tremor de escala 7,4 (escala Richter), que já é considerado um tremor de grande escala. Como o epicentro deste tremor era um pouco profundo (10km) não causou maiores problemas, mas de novo vemos que há uma probabilidade de geração de tremores do mesmo porte com movimento significativo do leito do mar.

As figuras a seguir, mostram a Sismicidade histórica da região. A primeira mostrando os terremotos a partir de 1900 de magnitude maior do que 7 na escala Richter (grandes e importantes), e a segunda todos os terremotos da escala 3 ou maior no mesmo período.


Fonte: National Earthquake Hazards Program do USGS.
É importante destacar que somente há pouco tempo (2011) nesta região foram localizados uma dúzia de grandes vulcões submersos ativos e não ativos, vulcões com até 2000m de altura, (AQUI e AQUI). Deslizamentos desses vulcões podem causar um Tsunami de grande porte.



Antes de terminar vamos a mais duas observações, em 1542, no início da colonização do Brasil, a primeira cidade construída pelos Portugueses no Brasil, a cidade de São Vicente, foi demolida por ondas de mais de 8 metros de altura, logo um fato histórico que permite a conclusão que não somos imunes a este tipo de desastre. Também para acrescentar mais uma causa a formação de Tsunamis podemos supor que o mecanismo de deslizamento da borda da plataforma possa gerar tsunamis, mas aí já é outra história.

23 dezembro 2012

Segundo os modelos do IPCC o Aquecimento Global favoreceria o terceiro mundo!


Vazou recentemente o relatório preliminar do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC) AR5, este relatório está quase na sua forma definitiva e era para ser publicado em 2013. Alec Rawls um republicano direitista e blogueiro teve a ideia de se inscrever como revisor do texto, coisa que é possível ser feita por qualquer um. Alegando que a maior parte das verbas para o estudo do clima e para a sustentação é pública, que na realidade é uma verdade inconveniente para quem não quer divulgar o relatório sem que este passe por um crivo político, publicou em um site especial o relatório por inteiro (http://stopgreensuicide.com/).

Este vazamento está causando enormes alvoroços em todos que são contra ou a favor das conclusões do IPCC. A temporada de discussão do relatório técnico já começou e diversas discussões estão sendo levantadas na blogosfera.

Entretanto não entrando no mérito que as conclusões do relatório estão ou não erradas, podemos simplesmente aceitá-las e olhar quais são as maléficas previsões que nos espera para o futuro!

Estas conclusões sobre as mudanças climáticas e as previsões para o futuro já discuti com um grupo de geólogos há mais ou menos 7 anos quando ainda os cenários de aquecimento global eram novidades no nosso meio. No momento da discussão sobre o assunto um experiente geólogo, que hoje em dia está aposentado, me fez uma pergunta que dei uma resposta a queima-roupa e acho que acertei.

Ele me perguntou:

Se a Terra vai aquecer poucos graus em média, fazendo que alguns lugares fiquem mais secos e outros mais úmidos, por que todo este alvoroço?

Respondi rapidamente:

Talvez a preocupação maior é que se redistribua a chuva de forma a modificar as condições atuais.

Foi uma mera especulação da minha parte, porém no relatório vazado vi confirmada a minha preocupação. Olhando a figura 1 do sumário de todo relatório (TFE.1, Figure 1 - Climate Change 2013: The Physical Science Basis - Technical Summary) acima colocada em que o item (d) da figura faz um balanço entre a evaporação menos a precipitação fiquei espantando, e espero que as pessoas que estão nos países do terceiro mundo também fiquem.


Balanço entre Evaporação-Precipitação, cores quentes (avermelhadas) significam mais evaporação do que precipitação, solo mais seco, já as cores frias (azuladas) significam mais precipitação do que evaporação, solo mais úmido.
Para que entendam melhor a minha surpresa, vejamos os pontos que serão mais afetados pelo aquecimento global (se ele existir).

Dando um zoom sobre a América, veremos que as catastróficas previsões do IPCC são de diminuição da umidade nos Estados Unidos, México, América Central e parte da Amazônia. Retirando o México do cenário, a quantidade de chuva (chuva – evaporação) causará danos sobre a agricultura norte-americana, pois tanto na América Central como na Amazônia uma diminuição de 0,2mm/dia (aproximadamente 75mm por ano) não fará muita diferença em regiões que chovem 150mm a 300mm por mês!





Por outro lado seguindo para o sul do Brasil, onde estiagens produzem muito mais danos a economia do que períodos de cheias deveremos ter um aumento de 0,4mm por dia (aproximadamente 150mm por ano), que é geralmente a carência hídrica dos períodos de estiagem



Mas como o mundo não se restringe a América vamos ver o que ocorreria se os modelos para o ano 2100 estiverem corretos.


Olhando com detalhe o sul da Europa e Norte da África, há uma previsão de diminuição significativa da umidade na Europa e uma diminuição média de 0,2mm/dia a 0,3mm/dia na Europa (75mm/ano a 125mm/ano) e no Saara (0,1mm/dia), considerando que no Saara já não chove mesmo somente a Europa e parte do Sahel serão prejudicados. Pelas previsões de vê que na parte do Saara próximo ao Egito haverá mais chuva e também em grande parte do Sahel, logo pode-se dizer que para a África, segundo as previsões do IPCC o balanço do aquecimento global é positivo.



Poderíamos reduzir a seguinte conclusão. Nos países desenvolvidos, na região norte do México e numa parte do Sahel, o regime de chuvas médias poderá diminuir, por outro lado, no sul do Brasil, em grande parte do Sahel e até nos desertos da África e na nos desertos da Arábia Saudita haverá mais disponibilidade hídrica, por consequência maior produção de alimentos nestas regiões.

A partir destas conclusões podemos até começar a rezar para que os modelos do IPCC estejam certos, e fica aparente qual a maior preocupação dos países industrializados do norte, a sua agricultura, como vantagem comparativa com os países mais pobres perderá importância, logo:

Que venha o aquecimento global!

NOTA: Pelos modelos aos desertos da Austrália receberão bem mais chuva!